The Dirt – Confissões do Mötley Crüe

Assim que foram publicadas as memórias do grupo oitentista mais selvagem de Hollywood, ocorreu uma turbulenta queda de braço para uma adaptação nos cinemas. Anos mais tarde a Netflix ganha os direitos de rodá-la. Um dos motivos era de não higienizar o infame legado do Mötley Crüe.

O filme integra uma tentativa da empresa em emplacar cinebiografias extravagantes como as do Queen e Elton John. Feito as outras duas, The Dirt (pegando emprestado o nome do livro) está mais atenta em ambientar uma época do que entregar veracidade aos eventos reais, sequer segue fielmente o livro fonte. Ela é a mais distorcida, com direito a romper a quarta parede alertando o fato. Tudo em prol da carga passional transmitida na trama do diretor Jeff Tremaine.

Deixa a impressão de terem recriado situações e transferido eventos para determinados personagens tentando não dar nome a certos bois, remover algumas manchas pessoais e de praxe enxugar a quantidade de envolvidos na turbulenta carreira do grupo.

A narrativa e personagens são extremamente simples, seja a visão sincera do grupo querer apenas uma vida caótica ou a velha fórmula da busca pelo sucesso e sua iminente queda.

Assistimos o jovem Frank Carlton Serafino Feranna Jr. em conflito com sua mãe e se tornando o famigerado baixista Nikki Sixx, de essência histriônica disseminada também na sua banda dos sonhos. Já o baterista Tommy Lee, não tem problemas com a sua família, é meio idiota além de mulherengo. Mesmo ele, apresenta o lado controverso de agredir mulheres.

Vince Neil, tão estrela quanto Sixx, proporciona os momentos de tensão na integridade da banda, tanto no seu recrutamento quanto em sua saída na fase mais crítica do Mötley Crüe.

Por último Mick Mars, o mais lacônico e coerente do quarteto. Ele é bem mais velho que seus colegas, deseja um ganha pão garantido e leva o projeto mais a sério. Seu drama é de provar estar no páreo entre artistas mais jovens pra piorar enfrenta um problema ósseo que enrijece todo seu corpo e interfere na sua capacidade motora.

Temos essas histórias paralelas se cruzando desde a construção da banda, a farra durante o seu auge, os conflitos pessoais ruindo com suas relações e decadência preparando o clímax da reconciliação.

Não há muita questão moral aqui, apenas acompanhamos suas vidas libertinas com foco na sua fase dourada. Talvez a única virtude seja a de ficarem unidos ante as confusões que sempre geram.

As atuações são básicas, às vezes soando paródia. O rapper Machine Gun Kelly atua como um baterista meio debilóide, ou o taciturno Mick Mars encarnado por Iwan Rheon parecendo mais o cachorro Droopy. Há lá um esforço do elenco como Daniel Webber cantando e não apenas se valendo de playbacks do Vince Neil.

Junto deles há inúmeros rockstars eloquentes como por exemplo David Lee Roth, Razzle do Hanoi Rocks e o Ozzy Osbourne proporcionando umas das cenas mais malucas do filme.

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Alterações fictícias e gente omitida é o que não falta. O guitarrista expulso no filme era na verdade Greg Leon, um conceituado guitarrista de Hollywood que por escolha pessoal não quis pertencer ao Crüe. Quem tomou chute na verdade foi o vocalista O’Dean Peterson, por ser bicho grilo demais na visão de Sixx e Mars.

Doc McGhee recebeu parte das atribuições do segundo empresário Doug Thaler como a questão da tatuagem com o nome refutado para o terceiro álbum Theatre of Pain. A expulsão de McGhee não foi por ter chamado a mãe do baixista, mas porque ele não insistiu em usar pirotecnia nos shows em Moscou ocorridos ao lado de Ozzy, Bon Jovi e Scorpions.

Na questão dos relacionamentos, omitiram dúzias de mulheres ligadas aos artistas que iam de atrizes pornôs, à capas de revistas masculinas. Com a omissão mais notória de Pamela Anderson, onde a briga matrimonial rendeu uma estadia de Tommy Lee na cadeia.

As décadas finais do filme se embaralham bastante. As relações do Mötley com o representante da Elektra Tom Zutaut foram mais demoradas até ocorrer o contrato de fato. Mesmo as negociatas de Sixx com a Elektra levaram muito tempo, Zutaut não estava mais na empresa. Isso só ocorreu após o fraco álbum Generation Swine. No filme tudo era firmado entre eles nos bares.

Vince Neil não era o único insatisfeito com a banda. Tanto Vince quanto Tommy Lee estavam administrando carreiras solo. No caso de Vince, o retorno ficou convidativo no momento que o segundo álbum solo do cantor afundou nas baixas vendagens. Tommy Lee já não aguentava mais ele e a reunião apenas ocorreu pela insistência dos seus agentes. A lista de mudanças é absurda. Renderia um artigo gigante.

O filme é um produto direto da marca Mötley Crüe, ele expressa toda a essência lunática da banda e deixa para o espectador fazer o seu próprio julgamento. Não tenta passar qualquer lição de moral, se não o senso de união. É um ótimo retrato da vida extravagante nos guetos de Hollywood durante a década de 80.

O filme gera vontade em buscar o legado da banda e reacendeu sua popularidade. Se esse foi o objetivo dos envolvidos, a proposta foi tão certeira quanto duas injeções de adrenalina no coração!

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