Phil Spector: A Excêntrica Vida do Mítico Produtor Musical

Houve burburinho quando anunciaram um filme acerca do mítico produtor musical Phil Spector, encarnado por nada mais nada menos que Al Pacino. Ambos tinham idades próximas, alguma semelhança, viveram em NY e quem melhor que o ator para expor toda a excentricidade controversa de Phil?

O balde de água fria veio no momento que a produção decidiu apenas focar em seu julgamento e o próprio formato de telefilme barato. Faz da realização um mero episódio especial de algum seriado investigativo da HBO. Antes de avaliar o que deu errado no produto final, vale dedicar uma curta apresentação de quem foi Phil Spector.

Harvey Philip Spector era um produtor, compositor e co-autor de grandes hits da música do século 20. Seu auge de atuação ocorreu entre o fim dos anos 50 e toda a década de 60, reaparecendo nos 70 e dos 80 em diante entrou em reclusão. Emplacou nomes como Ike & Tina Turner, The Righetous Brothers, participou do disco Let It Be dos Beatles além das carreiras solos de John Lennon, George Harrison e a polêmica colaboração com os Ramones.

Um de seus grandes feitos na indústria musical foi a criação da sua Wall of Sound. Ele fundia diversos instrumentos numa única camada e assim criava um timbre ímpar, também desenvolveu um interessante sistema de câmara de eco usando o porão de seu estúdio e incluiu instrumentos clássicos nas músicas voltadas ao público jovem. A qualidade era absurda perto de outros registros da época, ele valorizava a limitada tecnologia mono e a aparelhagem das rádios.

Essa genialidade era desfigurada pelas controvérsias que consumiam boa parte de seu tempo. A primeira delas era sua defesa ao formato Mono que para ele, era o produto final, a tecnologia stereo roubava o poder do produtor e apenas atendia o desejo do ouvinte. Defendia os singles e dizia que boa parte dos LPs tinham duas canções boas e dez mequetrefes.

Sua vida pessoal era ladeira abaixo. Ele mantinha um casamento abusivo com Ronnie Spector, líder das Ronettes, outra banda hit maker sessentista. Mantinha ela sob cárcere e controle total das suas músicas. Vivia armado e fazia demonstrações com seu arsenal enquanto produzia. Algumas mulheres também alegavam assédio com Spector geralmente impondo relações sexual sob uma arma apontada. Briguento, quando alguém tirava sarro da sua estatura ou aparência, ele logo exibia suas armas de fogo.

Seu recolhimento do grande público acaba nos anos 2000. Não foi surpresa para ninguém quando foi acusado em 2003 de matar a garçonete e propensa atriz Lana Clarkson. Ela foi encontrada morta em sua mansão numa poltrona devido a um tiro dado na boca. O motorista brasileiro de Spector alegou ter ouvido do próprio a sentença “eu acho que matei alguém”. Phil bancou 1 milhão de dólares na sua defesa e alegou que Lana cometeu suicídio na sua frente.

Com isso em mente, iniciamos o filme apresentando a equipe de defesa confabulando um jeito de achar uma fissura num crime tão escancarado. A advogada Linda Kenney Baden muito bem interpretada por Helen Mirren é tirada às pressas do seu descanso e também tratamento de uma pneumonia por Bruce Cutler (Jeffrey Tambor) advogado vigente que recebera uma fortuna para salvar a pele de Phil.

Cutler convence de toda a forma a relutante advogada a pegar o caso. Que por trás de toda aquela excentricidade e situação trágica, havia distorção dos fatos a respeito de um gigante da música. Linda nega de cara a tática baixa de atacar a vítima e com muita relutância aceita o caso e passa a entrar na mente de Spector. A relação de Linda e Phil é tão acentuada quanto a tensão da produção de um álbum. Só que aqui, é Linda que precisa dirigir o insólito produtor. Ambos compartilham idade avançada e debilidade na saúde, obrigados a combater multidões enfurecidas rondando os tribunais e o castelo particular do acusado.

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Conforme baixa sua guarda para a imagem esquisita de Phil, Linda começa a ter dúvidas sobre ele ter matado Lana, algo suficiente para levar a frente o caso e confrontar a grande maioria opositora ao produtor.

O filme, dono de um tema tão rico, e a própria tensão do crime é extremamente sabotado por seu diretor. Não bastasse refutar o drama da história de Spector, vital para compreendermos sua personalidade e o que de fato ele foi, a narrativa, cenas, tudo é extremamente fraco, depende da misericórdia de Helen e Pacino que não conseguem salvar o trabalho.

Helen é o destaque no filme todo. Ela passa a confiança necessária ainda que fraqueje pela sua doença. Jeffrey Tambor faz o seu eterno papel de burocrata arrogante cobrando genialidade de Linda, feito um produtor musical. Al Pacino revelou não ter grandes conhecimentos sobre Phil e isso pode ter enfraquecido um pouco sua atuação que está no modo automático. Tirando as roupas extravagantes, perucas e mudança súbita de humor, isso é praticamente uma versão enfraquecida do que ele fez no recente The Irishman.

Os habituais 90 minutos soam “enrolões” por desprezarem o passado, não pegam o crime para ser o gatilho remissivo. Então temos todos indo e vindo dos escritórios de defesa ao Phil, o tribunal e a mansão que mesmo sendo macabra, vira mera locação.

Parece que o diretor David Memet, crédulo na inocência de Phil, apenas desejou se concentrar na prova da ausência no derramamento de sangue na roupa do réu. Ele retruca o assunto duzentas vezes. Talvez se fizesse um filme biográfico e aí sim incluindo a tese, o produtor teria chances melhores de ter o pescoço salvo. Pra piorar, Memet recebeu boicotes de ativistas contrários à inocência de Phil Spector.

Outro pecado é a trilha sonora. Os hits de Phil são tocados de forma fria. Soa brega, desconexo. Martin Scorsese aplica com maestria sons assim nos seus dramas gângsteres. Realmente, faz Phil Spector um gigante adormecido por décadas na sua manta de dinheiro desperto num mundo alternativo e acusatório.

Uma das coisas positivas do filme é a de realçar o papel do advogado. Nem tudo tem uma resposta, se há a chance de dúvida, no mínimo o acusado merece ser defendido e ter o caso investigado – há bons diálogos vindos disso. Na situação, o acusado tinha muito dinheiro para ter o conceito posto em prática enquanto outros não afortunados sofrem por coisas menores. No fim, a dúvida é a questão do filme.

Pela produção querer um papel quase documental, vale mais a busca por documentários, biografias e entrevistas. Agora, se você é fã de programas investigativos ou apenas deseja assistir Al Pacino usando roupas esquisitas e teorias conspiracionistas, é um tele-filme aprazível.

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