MARCELO CAMELO – Circo Voador, RJ (07/05/2011)

“Felicidade”. O título da tristíssima canção de Lupicínio Rodrigues e que também já fez parte do repertório de Marcelo Camelo poderia definir muito bem o estado de espírito do público ao deixar o Circo Voador no último dia 7, após assistir ao show de lançamento do disco novo do líder do Los Hermanos. Mesclando canções novas e mais antigas, ele levou uma multidão ao delírio em um show bem mais agitado que promete “Toque Dela”, marcado em especial pelo tão raro substantivo comum citado no início do parágrafo.

Com uma carreira consolidada e planos de casamento com a musa Mallu Magalhães, Camelo está em um momento sublime na vida. Ele parece ter superado os tormentos e desencontros dos 20 e poucos anos para, enfim, tornar-se um homem capaz de bradar o amor e a plenitude. Sua performance ao vivo não poderia ser diferente – o banquinho, o violão e a voz baixa da turnê do álbum de estreia, “Sou” (2008), dão lugar ao homem apaixonado que canta de pé e guitarra em punho, escancarando uma alegria quase imoral.

Já passava das 23h quando se ouviram os primeiros acordes a vibrar na arena. Para aquecer os ânimos e os corações, Me & The Plant, projeto de Rodrigo Barba escolhido para abrir os trabalhos do dia, foi uma boa surpresa com seu indie de influências noventistas. A banda nova do eterno baterista do Los Hermanos – em um ótimo sinal de que Camelo mantém boas relações com seu passado musical – agitou um público que, apesar de pequeno, sabia de cor todas as canções.

Sem demora, um Marcelo Camelo despojado – e de bermudinha! – adentrou o palco com “Ôô” e na companhia de sempre dos amigos do Hurtmold, sua banda de apoio desde os primeiros shows da carreira solo. Na primeira canção, já era possível perceber: de volta a sua cidade natal, Camelo definitivamente estava em casa – impressão confirmada quando, em um gesto tão familiar a todos nós, ele regou uma das samambaias que compõem a cenografia do show. O palco era seu lar e, nós, visitas mais que bem-vindas.
Na fofa “A Noite”, a casa cheia se tornou uma só voz para entoar uma música que parecia absolutamente cheia de verdade ao sair das cordas vocais do homem que era todo sorrisos ao cantar o verso irresistível e grudento “Triste é viver só de solidão”. “Tudo O Que Você Quiser” e seus tecladinhos quase kraftwerkianos prenunciaram a animada “Menina Bordada”, momento em que o alegre Camelo chamou o povo pra pular: “Vocês estão em pé é pra dançar!”. A sensação é que “Toque Dela”, apesar de bastante feliz, devido a sua carga melódica, ainda parece um tanto melancólico em estúdio. Ao vivo, as músicas ganham cor e forma, ganham força e fôlego, tornando-se hinos empolgantes ao amor e la dolce vita.

Os bons fluidos eram perceptíveis e contagiantes. Em “Mais Tarde”, viu-se um Marcelo que brincava e dançava no palco. Com “Janta”, eternizada em estúdio na parceria entre o Hermano e a então futura namorada, ele mostrou desenvoltura e conforto, brindando a fortuna com uma garrafa de cerveja. “Liberdade”, “Doce Solidão” e “Vermelho” antecederam um momento revival com versões bem tropicais de “A Outra” e “Morena”. “Pretinha” foi dedicada “a todas as mães e todo mundo que tem uma” – incluindo dona Ana, a dele. “Vida Doce” encerrou a primeira parte da apresentação com sua pitada de verão – uma delícia.

No bis, depois do Hurtmold exibir toda sua desenvoltura com alguns ótimos minutos do instrumental etéreo que sabem fazer tão bem, Camelo voltou ao palco para pegar todos de surpresa ao cantar “Santa Chuva” a pedidos e distribuir as plantinhas ornamentais – disputadas a tapa pela plateia. “Pra Te Acalmar” e “Copacabana”, a marchinha mais querida entre os fãs, encerraram o setlist, que para a multidão só acabou mesmo com o coro de “Além Do Que Se Vê” entoado por um Circo Voador que o fez mesmo depois que o cantor e banda já tinham se retirado do palco. É exatamente isso que ele é capaz de fazer com seus fieis seguidores que, tão apaixonados quanto ele anda pela vida, o são por sua música. Marcelo Camelo está feliz… E a gente acaba ficando também.

Texto e Fotos: Julianne Gouveia

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