ERASMO CARLOS – Circo Voador, RJ (23/03/2012)

ERASMO CARLOS (o nosso “TREMENDÃO”) comemorando 50 anos de carreira no CIRCO VOADOR, numa noite que por si só já teria caráter de historicidade ímpar! Um dos precursores do ROCK N ‘ROLL no Brasil e principal compositor da música popular brasileira juntamente com o eterno parceiro ROBERTO CARLOS, não precisa provar mais nada a ninguém.

Mas os últimos anos (com a proximidade do seu aniversário de 70 anos) fizeram-no ampliar avidamente o seu ciclo de parcerias (ARNALDO ANTUNES tem sido o mais freqüente), se juntando a uma garotada devotada a ele e talentosa (a banda carioca FILHOS DA JUDITH) e ousar vertiginosamente na temática do seu último álbum, chamado simplesmente de “SEXO”.

A chuva forte ousou dar o ar de sua graça exatamente quando o FILHOS DA JUDITH começava os trabalhos como banda de abertura. Show curto e eficiente (cinco músicas apenas), mostraram porque são considerados uma das grandes revelações do rock nacional. Seu álbum de estréia (produzido pelo mestre LIMINHA) foi avaliado como uma das melhores estreias dos últimos tempos. E também não é pra qualquer um ter o privilégio de acompanhar um ídolo, já que a principal influência da banda é BEATLES e JOVEM GUARDA.

E aproximadamente 40 minutos depois, com o CIRCO já bem mais cheio (poucos viram a abertura) de pessoas de todas as faixas etárias possíveis, o “TREMENDÃO” já chega “pesado” com a faixa de trabalho “KAMA SUTRA”, que é uma das melhores músicas já feitas sobre sexo, com certeza! E tivemos uma aula de como um artista ainda pode ousar e se reinventar, mesmo com 50 anos de carreira. Além do excelente novo repertório, muitos dos seus clássicos (difícil em sua obra precisar o que não é) ficaram revigorados de uma forma impressionante.

A seqüência JOVEM GUARDA me abre alas com uma “PODE VIR QUENTE QUE EU ESTOU FERVENDO” beirando ao mais pesado dos rocks setentistas! “PEGA NA MENTIRA”, “MESMO QUE SEJA EU”, “SOU UMA CRIANÇA E NÃO ENTENDO NADA”, “FILHO ÚNICO” e principalmente “PANORAMA ECOLÓGICO” nos surpreenderam positivamente com esse mesmo impacto. Foi puro poder sonoro mesmo! A platéia dava seu show a parte: gritando, pulando, dançando todos juntos de forma interativa (infelizmente havia espaço suficiente no local não lotado), fazendo do evento uma grande e literal “FESTA DE ARROMBA”!!

O bordão recém-criado que repetiu-se incessantemente após cada canção (“É do c…!”) se tornou um dos protagonistas principais. Erasmão comentou que esse “grito de guerra” ele ainda não conhecia e tinha gostado bastante, para delírio geral da massa. Oferece água e diz com sarcasmo que os tempos mudaram. Faz um discurso exaltando o sexo e as mulheres e solta as “pérolas baladeiras” “MULHER” e “MINHA SUPERSTAR” (em homenagem a elas é claro!), que foram cantadas aos brados!

Comentando mais diretamente sobre os anos 80, disse que várias de suas composições com o Rei foram taxadas de “músicas de motel” pelo conteúdo das letras e que esse rótulo muito lhe incomodava, pois realmente chegou a se ouvir num desses “locais mais reservados” e acabou se distraindo com sua própria canção, não sendo uma experiência das mais agradáveis. Claro que o riso foi geral! Aproveitou e emendou uma seqüencia em tom minimalista (piano e voz) com várias dessas, com destaque para “CAVALGADA”, “EU TE PROPONHO”, “CAFÉ DA MANHÔ e “OLHA”, músicas que ninguém esperava que fossem compor o roteiro musical daquela noite.

O único antemão neste espetáculo foi nesse momento, estava levemente rouco em algumas passagens, mas óbvio que não comprometeu o resultado final, mediante a felicidade e energia das pessoas na audiência. Aliás, na fila do gargarejo, a também lenda viva do rock SERGUEI, dava show de vitalidade com sua irreverência de sempre.

O cantor critica os colegas que tem aquelas “obrigações” que não podem faltar ao repertório e são ignoradas por eles. E conclama o público como a razão de sua existência artística e sendo assim “possuidor” do seu repertório, elegendo as suas imperdíveis. E toma “GATINHA MANHOSA” e “SENTADO A BEIRA DO CAMINHO” (com arranjos muito superiores as originais), que ele mal precisou cantar com o lindo coral profanado pelo povo. Emenda direto com “É PRECISO SABER VIVER” e diz ao público em tom de bronca geral: “Vamos ser felizes, p…!” Bonito momento e mais ROCK’N’ROLL impossível!

E destaque absoluto para a banda também, que além dos “JUDITHS”, tem o exímio guitarrista BILLY BRANDÃO na sua fileira. No final, a irônica “COVER DE MIM” leva vários protagonistas de sua genial letra ao palco, como RAUL SEIXAS, MARYLIN MONROE e o “velho amigo” ROBERTO CARLOS distribuindo rosas vermelhas para as meninas, hilário!!

E se despede dedicando aquela noite ao velho amigo CHICO ANYSIO, resultando numa ovação “ad eternum”! Antológico, foi o que tivemos a oportunidade de vislumbrar nessa noite. De tirar o fôlego, emocionar e lavar a alma! Com toda essa estrada e bons serviços nos prestados, ERASMO CARLOS é mais ROCK’N’ROLL, lirismo e poesia que qualquer coisa produzida no Brasil, principalmente após essa guinada recente. Os mais jovenzinhos que “pagam pau” para qualquer gringo que sempre é conclamado como “a salvação do rock”, deveriam ter estado lá.

Para rever seus conceitos, exercitar seu ouvido e simplesmente saber que temos isso dentro de nosso próprio país e nos é agraciado por um simpático senhor de cabelos brancos. Ficariam felizes como todos estavam… Difícil já não constar como o melhor show do ano até o presente momento. Quem viu, sabe do que estou falando!!

Texto: Alessandro Iglesias
Fotos: Milena Calado

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