Entrevista com Fernando Campos, da THORN

No dia 30 de janeiro de 2010, Fernando Campos nos concedeu uma entrevista e falou sobre as novidades da banda carioca de heavy metal: THORN.

Rockzone: Vocês, em seu primeiro EP (The Final Solution), foram elogiadíssimos por vários críticos do meio. Quais são as espectativas e o que muda com o novo CD (The Shell of Hate)?

Fernando Campos: Agradecemos muito, até hoje, a receptividade do “The Final Solution” e todas as pessoas legais que se aproximaram de nós por causa desse disco. Faz uns três anos ou mais… Nessa época nós eramos quatro malucos (e um computador) gravando um disco de heavy metal dentro de um apartamento. Agora, alguns anos mais velhos, somos cinco malucos e uma boa quantidade de agregados gravando um disco de heavy metal dentro de um pequeno estúdio na Zona Norte do Rio de Janeiro. Felizmente, não mudou nada. Em termos técnicos, para o Shell of Hate nós tivemos alguns recursos a mais do que os que usamos para fazer o The Final Solution (quando não tínhamos praticamente nada). A grande expectativa para o Shell of Hate é que seja algo singular em todos os aspectos, ou seja, que tenha personalidade própria. Independentemente do que sair no resultado final, esse é o principal objetivo, e se isso acontecer ficaremos muito felizes. 

Rockzone: Qual é a previsão de lançamento e quais são as novidades desse novo álbum ?

Fernando Campos: Eu gostaria muito de dizer que o disco estará pronto ainda no início de 2010, mas eu duvido disso. A produção do disco teve vários contratempos. Como nós não temos uma super-estrutura, fazemos as coisas aos poucos e contando sempre com a boa vontade de algumas pessoas que nos ajudam. E isso faz com que as coisas andem devagar. Pretendemos começar a trabalhar na masterização ainda este mês. A masterização é cronologicamente a última etapa da produção de um fonograma. Um grande amigo chamado Carlos de Andrade, que dirige um dos maiores estúdios da América Latina (localizado no Rio de Janeiro) e tem um bom número de discos de ouro pendurados na parede de seu escritório, tem dado uma ajuda imensa para nós – e não só nesse aspecto. Depois disso vamos começar a trabalhar em arte gráfica, fotografia e esse tipo de coisa. A boa notícia é que ainda em fevereiro estamos fechando um primeiro single que leva o nome do álbum (Shell of Hate) e vamos lançá-lo aqui no Rock Zone, se vocês deixarem, claro. Essa faixa conta com a participação de dois convidados bastante peculiares. Nos vocais, participa um amigo nosso chamado Zak Stevens, de uma banda norte-americana chamada Savatage (posso dizer que eu, e que pelo menos 50% do Thorn, somos muito fãs desses caras). A faixa Shell of Hate ainda tem o violino de um cara chamado Mio Vacite (procurem por ele no You Tube). Mio além de ser um ícone da cultura cigana no Brasil é considerado um dos melhores violinistas do estilo no mundo. Ele é realmente sensacional. A faixa ainda tem duas baterias tocando simultaneamente em alguns trechos e mais algumas insanidades. Esse tipo de coisa que pode-se esperar do Shell of Hate. O disco tem diversas surpresas e detalhes interessantes que nós vamos mostrar aos poucos. Nós juntamos alguns amigos, doze canções e tentamos colocar tudo isso dentro de um álbum de heavy metal. 

Rockzone: A formação da banda mudou durante esse período?

Fernando Campos: A primeira nova aquisição da banda foi o Hugo, que chegou depois da Demo (EP, seja o que for The Final Solution). Além de tornar os ensaios mais divertidos e engraçados ele faz os teclados. Hugo é um músico virtuoso, formado em composição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É sempre um guia quando temos alguma decisão no âmbito musical para tomar. Se você tem dúvidas de como vai harmonizar uma melodia atonal ou esqueceu qual o acorde subdominante da tonalidade de F# Maior você liga pro Hugo, a qualquer hora, e ele te responde. Isso é sempre muito útil. Ao vivo temos duas grandes cantoras que fazem os backing vocals: Mel Matos (Atena) e Angélica Burns (Scatha). Estamos planejando ter um percussionista para as músicas do Shell of Hate mas isso ainda não aconteceu ao vivo. E não dá para esquecer a nossa empresária/manager Kikha Dantas que certamente podemos contar como mais um membro da banda. Isso mudou bastante as coisas porque é uma pessoa séria para disciplinar (ou tentar disciplinar) o resto de nós. Nas gravações do Shell of Hate sempre tem algum amigo(a) nosso convidado fazendo alguma coisa (pianos, violinos, percussão, backing vocal e até algumas baterias e contrabaixos). Para não passar em branco (e eles não reclamarem) vamos citar rapidamente tentando não esquecer de ninguém: Flaveus Van Neutralis (Neutralis), Wallace Ribeiro, Rosana Fiengo, Ricardo Confessori (Angra), Riq Ferris, André Neiva (Jorge Vercilo), Gustavo Schoetter (A Cor do Som), Jahir Soares (Rio Reggae), Valdir H-Drone (V.A.I.N.), Thiago Costa (Katharsia). Alguns deles vocês certamente conhecem, e outros provavelmente não. Mas eles são pessoas muito importantes para nós. Possivelmente vai faltar alguém, mas nós demos um jeito de encaixar quase todos aqueles que nos são caros neste disco. 

Rockzone: Quais são as influências do Thorn?

Fernando Campos: O Thorn é mais ou menos assim: Rossi é a nossa porção hard-rock/heavy metal norte-americano e tudo aquilo que cheira como farofa, ele também é sempre o primeiro a abraçar alguma idéia mirabolante que alguém dê, e transformá-la em uma coisa concreta (por mais surreal que possa parecer), enquanto o resto de nós ainda está pensando sobre o assunto. Thomás é o nosso headbanger que escuta thrash ”fucking” metal tipo Slayer e Sepultura. Beto é o cara do metal tracional, Iron Maiden/Metallica/Judas Priest e cia. No caso do Hugo, possivelmente é o prog metal sua maior influência. Eu acredito que sou o responsável pelos elementos estranhos e psicodélicos do Thorn (arranjos de reco-reco, loops eletrônicos de funk, tambores de candomblé, violinos ciganos e os demais elementos exóticos do disco). Uma coisa louvável no Thorn é que todos têm uma tolerância muito grande em termos de música e sempre que algum de nós propõe uma idéia completamente fora da realidade nós tentamos realizar essa idéia para ver o que sai. Raramente alguma coisa é descartada diretamente. 

Rockzone: Até onde sabemos, vocês não tem contrato com nenhuma gravadora. Quais são as dificuldades de se ter uma banda, gravar álbum, fazer shows etc, sendo uma banda brasileira e independente?

Fernando Campos: É… sim… sem eufemismos… nós somos “fudidos”… Nós somos uma banda independente. Recentemente, passamos a contar com a nossa empresária/manager, como disse antes, e isso melhorou bastante o funcionamento das coisas. Entretanto, sendo uma banda independente, é extremamente difícil fazer qualquer coisa porque você bate de frente com uma estrutura que sempre joga contra você. E um detalhe importante: a imprensa mainstream vira as costas para você não importa o que aconteça. Há alguns anos atrás, nós passamos por isso de uma forma muito chata: enquanto nós eramos o “Myspace” mais visitado do Brasil inteiro (isso aconteceu em dois momentos distintos de nossa existência e por várias semanas seguidas), a mídia entrevistava uma certa “cantora” como o fenômeno do Myspace brasileiro. Na época, nós tínhamos um fluxo de acesso infinitamente maior do que qualquer um dos outros participantes brasileiros deste site, porque trabalhávamos nossa divulgação praticamente somente através dele. Mas se você não tem uma gravadora ou não tem grana pra pagar jabá, ninguém vai falar sobre você nos veículos maiores. Você simplesmente não existe. Isso é fato. A pior parte é que muita gente acredita nessa coisa de “mídia” e que as pessoas estão lá por razões realmente nobres quando, na verdade, toda a mídia mainstream não passa de um espaço publicitário sendo alugado. Não é errado… A coisa funciona assim, mas as pessoas deveriam ter consciência disso. Voltando ao Thorn, nós contamos com o pessoal da guerrilha. Os zines, os programas de TV veiculados no Youtube e TV’s locais alternativas, os sites especializados da internet, a comunidade do Orkut (comandada pelo Hanfferson) e as pessoas que acabam passando o material para frente…. Aqueles que estão lendo esta entrevista… E viva o Rock Zone! De certa forma isso é bom porque essas pessoas acabam se tornando seus verdadeiros amigos ao invés de um contato superficial de alguém que te viu no rádio ou na televisão. Essas pessoas participam ativamente ajudando, apoiando e se intrometendo no que você faz… Isso tem muito mais valor do que uma multidão que está ali ocasionalmente porque você está em evidência naquele momento. E posso dizer que isso é praticamente um fato histórico: mesmo um grande exército, dificilmente vencerá uma guerrilha. As pessoas que estão ligadas a nós participam de uma forma tão passional que valem por grandes multidões. 

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Rockzone: Como vocês analisam a “cena rock” brasileira na atualidade?

Fernando Campos: Bom… Vamos falar do Rio de Janeiro e especificamente de “rock pesado” – que podemos analisar mais de perto. Eu sinceramente não tenho muito conhecimento sobre o que anda rolando fora da cidade e acho impróprio falar sem um conhecimento minímo que seja. Aqui, não vejo uma cena rock. Nós temos boas bandas e um bom público… É um bom material bruto, mas não existe uma cena. Temos alguns heróis produzindo eventos (eu vou citar dois – Thiago Araújo (a.k.a. DJ Undertaker) deste site e Adam Alfred do RMW – simplesmente porque são duas pessoas que conheço pessoalmente e tenho grande estima – sei que existem muitos outros além deles igualmente heróicos. Existem poucas webrádios, na maioria das vezes sem muitos recursos e algumas pessoas produzindo sites ou publicações. Nas festas do estilo, a maioria dos DJs ganha pouco ou nada para tocar. Nós não temos uma rádio rock de grande alcance, nem sequer um programa. A TV raramente cita qualquer coisa relacionada ao estilo musical que vá além daquele pseudo-pop-rock-jabaculê-de-sempre ou a banda-do-filho-sobrinho-etc-de-alguém, e quando cita é sempre de forma negativa ou com uma péssima pesquisa sobre o assunto (principalmente quando se trata de heavy metal). Contudo, acho que nós temos o mais importante, nós temos as bandas, as pessoas produzindo música e o público. Um dia certamente isso vai se tornar uma cena. Para se ter uma cena, nós precisamos que a coisa se torne profissional, é chato falar disso, e as pessoas na maioria das vezes evitam ou tangenciam o assunto para não misturar arte e o fator financeiro, mas precisa haver investimento… Dinheiro!! Infelizmente, a coisa precisa de dinheiro pra funcionar, para que as pessoas que trabalham em todos as funções envolvidas possam se dedicar exclusivamente a essa atividade e também contar com melhores recursos para trabalhar… Aí sim, podemos começar a considerar a existência de uma cena artística. 

Rockzone: Os integrantes da banda estão envolvidos em outros projetos?

Fernando Campos: Thomás tem uma banda de Thrash Metal muito legal que se chama Overspread (ex-Slaughterhouse). Beto participa de um cover do Iron Maiden (Brazilian Maiden) e está lançando uma banda de pop chamada Atena. Hugo certamente deve participar de vários projetos interessantes mas eu não faço a miníma idéia de quais sejam eles. E Rossi, além de estar finalizando seu disco de hard rock, fez as vozes para a versão brasileira da abertura da série de anime japonês dos Cavaleiros do Zodíaco. Mel fez o encerramento do mesmo anime (o que nos deixou muito orgulhosos dos dois). Em breve, devem surgir mais novidades sobre isso. Se isso contar como “outros projetos”, eu estou produzindo e participando como baixista de um disco de samba que será lançado em 2010 e que terá algumas composições minhas no estilo. 

Rockzone: Valeu, pessoal. Foi um prazer fazer essa entrevista. Mandem uma mensagem pro pessoal do “Rock Zone”!

Fernando Campos: É sempre um prazer participar de qualquer coisa em que o nosso padrinho Thiago Araújo e o nosso querido Andrei Maurey estejam envolvidos. E nós sempre agradecemos todo o apoio que esses caras sempre dão para nós. Torcemos muito pelo sucesso do Rock Zone… Que traga bons frutos pra todo mundo. Aproveitamos para agradecer imensamente a todos que leram a entrevista toda, alguma parte ou somento o título… Esperamos que em breve todos comprem, copiem, baixem da internet, ou peguem emprestado do seu primo uma cópia do Shell of Hate, escutem e não esqueçam de nos dizer o que acharam. Nos vemos em breve no Shell of Hate. Grande abraço a todos.

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