Entrevista com a DEF3

1. Para iniciar a nossa entrevista, como vocês se conheceram e formaram a banda?

Def3: Nos conhecemos desde crianças, somos literalmente uma família, nossos amigos brincam dizendo que fazemos parte de um clã, máfia ou ordem, “A Família Muniz”.

Somos dois irmãos (Armando Muniz: voz e guitarra, Maick Muniz: guitarra e voz), e um primo que foi criado conosco como irmão ( Leandro “PXE” Muniz: baixo e voz).

Nós dividimos a banda em três fases correspondentes a cada baterista que já atuou na banda. Inicialmente o cargo de “batera” era de um amigo nosso (Leonardo Medeiros), que hoje trabalha como produtor musical e de alguns eventos como por ex. o “TNQ Rock” em Jacarepaguá, e ainda é baterista da banda Vulgare. Depois veio a “fase Edgar Marinho”, outro amigão nosso, com ele gravamos nosso CD demo “PREMATURA”, em 2004. A terceira fase foi com nosso irmão Edu Muniz, que esteve no posto de baterista até o início de 2011, mas precisou deixar o Estado do Rio de Janeiro para se especializar num curso que duraria um ano. Ficaríamos parados por um ano, mas felizmente convidamos o Edgar para tocar na festa de despedida do Edu, e esse encontro resultou na sua volta ao grupo.

2. Inspirado em que vocês colocaram o nome da banda de Deftrês?

Def3: Bem no início da banda, um pouco antes do PXE comprar seu baixo, representávamos três sons básicos (voz, guitarra e bateria), ensaiávamos no quarto do baterista (na época o Léo), sem proteção acústica e sem noção de decibéis, protetor auricular etc. Acabávamos os ensaios com os ouvidos zunindo, completamente surdos. Um dia o Armando chegou com essa idéia da sonoridade da palavra “deaf” que significa surdo em inglês, fazendo um trocadilho com a tecla 3 do telefone, DEF3 (três surdos), mesmo com a inclusão do quarto som resolvemos ficar com o nome (pois gostávamos da sonoridade DEF3 e também ficava bonita a grafia nas filipetas rs), mais tarde adotamos um novo significado, onde cada caractere representa um membro (3 letras e 1 número).

3. O mercado atual da música está cada vez mais competitivo com tantas bandas se lançando através de blogs, Youtube e afins. O que vocês acham disso e como foi para vocês quando começaram em 1999?

Def3: A internet é uma ótima ferramenta usada por muitas bandas independentes ou não independentes, o mercado realmente fica mais competitivo, porém tem espaço para tudo e para todos. Em 1999 era na raça, amigos se organizavam e dividiam as tarefas para a cena acontecer. Pedíamos amplificadores emprestados, juntávamos tudo e arrumávamos algum espaço para “rolar o barulho”, esse espírito “faça você mesmo” era para tudo (gravação, ensaio, show, divulgação), a diferença estava nos recursos muito limitados na época. Hoje todos têm a oportunidade de pelo menos mostrar a idéia, mesmo sendo crua, acredito que uma idéia se venda melhor já estando desenvolvida, montada e direcionada pra determinada situação, ainda assim vemos a funcionalidade (quase mágica) da Rede para divulgar tais idéias. O que era fanzine fotocopiado virou blog e fotolog, a Demo (fita k7) virou CD e depois mp3… É uma evolução de acordo com a nossa realidade cada vez mais veloz e sem fronteiras.

4. Na comunidade que foi criada para a banda no Orkut, está escrito que vocês seguem “uma estética de rock independente antropofágica”. Expliquem isso melhor para os leitores.

Def3: Todos nós sabemos a dificuldade que existe em tentar definir seu trabalho, esse termo foi baseado na idéia que começou na semana de Arte Moderna de 1922, tendo Oswald de Andrade como principal idealizador e Heitor Villa Lobos representando a Música.

‘O movimento antropofágico brasileiro tinha por objetivo a deglutição (daí o caráter metafórico da palavra “antropofágico”) da cultura do outro externo, como a norte-americana, européia e do outro interno, a cultura dos ameríndios, dos afrodescendentes, dos eurodescendentes, dos descendentes de orientais, ou seja, não se deve negar a cultura estrangeira, mas ela não deve ser imitada. ’ (retirado da wikipedia em 25/03/11).

Essa idéia teve reflexos mais tarde no Tropicalismo e recentemente no movimento Mangue Beat. Consideramos a própria identidade nacional como resultado dessa metáfora, sendo assim, somos em essência uma banda de rock (estilo estrangeiro), pois usamos todos os quesitos que caracterizam tal estilo (na formação instrumental, na atitude, na forma das composições etc.), mas aproveitamos aspectos da cultura nacional como a própria música (células rítmicas de samba, harmonias comuns em bossa nova etc.), além de priorizarmos a língua portuguesa. Fora isso tudo ainda poderíamos colocar como elementos importantes no resultado final do trabalho, a influência de músicas de videogame (especificamente da segunda e terceira gerações), HQ (histórias em quadrinhos), animes, filmes alternativos, cultura pop etc.

5. Em algum momento vocês pensaram em desistir de tocar por alguma dificuldade?

Def3: Nunca foi fácil, mas não tínhamos noção disso no começo (era muita vontade e pouca noção). A primeira vez que tivemos uma dificuldade foi com a saída do Léo (acho que ele tinha planos maiores, que não cabiam pra nossa realidade na época), nessa época já tocávamos bastante, então não levou muito tempo para que a vaga fosse preenchida. Lembro que o Edgar (ex-Zomba e Zero-side), já tinha “tirado” algumas músicas, ele curtiu muito a letra de uma música nossa chamada “Na Real”, e havia se identificado tanto que muitas vezes tocava ela conosco nos shows. Inclusive essa música, pode ser considerada um divisor de águas na história da banda, foi a partir dela que começamos a compor em português, que descobrimos nossa identidade musical e devemos muito ao Anderson “Kbeça”, que foi o produtor e grande mentor da banda. Uma grande dificuldade hoje é que não somos mais adolescentes e temos nossas responsabilidades da vida adulta, é difícil conciliar o trabalho da banda com nosso cotidiano e compromissos profissionais e familiares, isso certamente é um exercício e exige muito planejamento, negociação e determinação. Apesar das dificuldades, sempre tivemos essa relação familiar com as pessoas que passaram pela banda e amigos que acompanham nosso trabalho. Em 2009 fizemos um show na Lona Cultural de Jacarepaguá em comemoração aos 10 anos da banda. Dividimos o show em 3 atos, e convidamos os 2 bateristas antigos para tocarem as músicas correspondentes às suas épocas, ainda tivemos a participação de uma amiga (Vanessa Guida) formada pela Escola de Belas Artes que pintou painéis baseados nas nossas músicas e ainda o nosso primo, Cris Muniz que é tatuador e grafiteiro, produzindo umas alegorias com arte urbana para decorar o palco. Não podemos esquecer do Vitor e do Guto que elaboraram a arte do nosso CD e Fabio Fausto que também fez um trabalho muito interessante com a banda. A idéia do evento era juntar todos esses amigos colaboradores, que hoje seguem carreiras distintas e apresentar algum trabalho que tivesse ligação com a cena que vivemos a 10 anos. Foi um show histórico!

LEIA MAIS  She is Dead conquista fãs ao redor do mundo com o punk e garage rock em novo disco

6. Pelo o que pude assistir em alguns vídeos da banda consegui ouvir nitidamente o público cantando junto com vocês todas as músicas. Qual é a sensação de saber que mesmo sendo uma banda independente já existe um grande número de fãs?

Def3: Como falamos na resposta anterior, temos essa relação com o público que acaba sendo uma grande rede de amigos, acreditamos que a banda seja um elo que une a todos, pois os nossos shows acabam se transformando num encontro, uma celebração entre amigos onde o objetivo é relaxar, trocar idéias e ouvir música. Consideramos a visão de “Christopher Small”, onde ele sugere que o termo música seja encarado como um verbo (valorizando a ação), criando assim a expressão “Musicar”. Segundo essa visão, todos os agentes de áreas diferentes, seriam responsáveis pela realização de um show, isso incluiria desde os músicos até roadies, produtores, público, técnicos de som, veículos de divulgação, pessoal da limpeza, seguranças etc. É uma visão bem ampla e interessante que vale a pena ser pesquisada. Quanto a ouvir o público cantando as músicas, na nossa opinião, é a melhor sensação para um músico, uma sensação inexplicável e muitas vezes acaba sendo nosso cachê, os fãs são a prova viva de que existe algo de válido no que fazemos, e é muito bom saber que tem uma galera que curte nosso trabalho, isso realmente não tem preço!

7. Vocês têm planos para 2011?

Def3: Na primeira pergunta falamos um pouco sobre a saída do nosso irmão baterista, então diante desse fato, podemos dizer que o ano de 2011 começou meio conturbado, o Edgar é um excelente músico e apesar de estar parado há muito tempo, tem se mostrado pronto para “a correria” desse mundo louco que é a cena alternativa, mesmo assim a readaptação leva tempo e estamos ensaiando bastante para o show ficar “bem amarrado”. Nesse momento estamos com a meta de não parar por conta desse imprevisto (a troca de baterista), marcando shows de acordo com a disponibilidade do Edgar e de certa forma com a agenda dos outros integrantes que seguem carreiras profissionais paralelas à função de músico.

Não descartamos a possibilidade de produzirmos um CD demo com músicas novas que já estamos tocando em shows mais recentes e ainda estamos estudando formatos de repertórios diferentes do que vínhamos fazendo, estamos dividindo nossos shows em 3 blocos de 10 minutos, onde tocamos músicas próprias mescladas a trechos de algumas músicas de outras bandas, isso requer certo tempo e estudo, pois ficamos limitados a parâmetros como andamento e tonalidade dos trechos incidentais com as nossas músicas..

8. Qual é o conselho que vocês dão para quem está começando a montar uma banda agora e tem um sonho de conquistar um lugar ao sol?

Def3: Primeiro é estar consciente de que não é fácil e que existem muitas bandas boas em todos os segmentos. Achamos que uma qualidade, muito importante para uma banda hoje, é ser o mais profissional possível. Para isso é necessário vivenciar esse universo, freqüentando os shows, conversando com bandas mais experientes, estudar o seu equipamento para evitar problemas com a galera que está trabalhando no evento, ser pontual, respeitar as regras de cada casa de show, respeitar outras bandas mesmo quando essas fazem trabalhos diferentes do seu, identificar e se relacionar com pessoas que tenham potencial para acompanhar seu trabalho, se atualizar quanto às formas de divulgação existentes na internet, tentar ser justo e ético mesmo numa conversa informal, pois cada membro acaba representando a banda e uma atitude ou comentário mal pensado pode comprometer todo o trabalho da banda. Poderíamos listar muitos outros aspectos, mas achamos que com esses já da para começar, rs.

9. Muito obrigada pela entrevista e boa sorte para vocês. E qual é a mensagem que vocês gostariam de mandar para o público do Rock Zone?

Def3: Nós que agradecemos a oportunidade de te conhecer e ainda ficarmos por dentro desse trabalho que ajuda a compor o site, que por sinal é excelente também. A mensagem que gostaríamos de deixar, na verdade seria uma proposta de reflexão a todos. Que todos nós somos participantes ativos na construção da cena independente, temos tanta responsabilidade quanto qualquer outro agente e apesar de desempenharmos papéis diferentes, representamos engrenagens que fazem essa grande máquina funcionar, citando “Tio Ben” das “HQs” do Homem aranha:

“Grandes poderes exigem grandes responsabilidades”.

By Milena Calado

guest
0 Comentários
Sugestões
Veja todos os comentários