CBGB: O Berço do Punk e do Rock N’ Roll Underground

cbgb-movie-2 (com imagens)Cinebiografias perigam a imprecisão histórica em prol do roteiro cativante. CBGB assume descaradamente sua liberdade poética e forja sem hesitar diversos eventos ocorridos no infame bar novaiorquino expoente do punk estadunidense.

A película se revela uma homenagem póstuma ao proprietário Hilly Kristal, interpretado por Alan Rickman. Praticamente uma encomenda de sua filha Lisa e quiçá justifique também seu co-protagonismo durante o desenrolar do filme.

Sob uma fórmula de comédia-adolescente, a produção narra do seu próprio jeito a história de Hilly e o surgimento do bar CBGB. Num ritmo underdog, a trama apresenta Hilly, um inapto comerciário implorando por empréstimos no banco. Sem escolha, Kristal pega dinheiro com sua mãe. Rickman atua de forma satisfatória como o dono do CBGB: Um cara relapso, ranzinza, intimidador mas apresentando bom coração.

Na escolha mais fadada ao erro, Kristal e seu sócio Merv Ferguson (Donal Logue), sempre usando um capacete de proteção, resolvem abrir seu bar no meio do Bowery, uma região novaiorquina de cena cultural devastada, reduto de drogados e vagabundos de toda estirpe. Os dois logo se entendem com uma gangue de motociclistas para protegê-los e um policial corrupto para fazer vista grossa ao que viesse a acontecer.Meet The RAMONES - CBGB Movie Clip # 13 - YouTube

Seu bar de country, bluegrass e blues (daí o acrônimo CBGB) não consegue qualquer artista desses gêneros, some a isso problemas estruturais no lugar e a péssima gestão de Kristal. É aí que surge sua filha Lisa (Ashley Greene), ela tem seus problemas familiares porém tenta colocar o muquifo nos eixos, inclusive é endossada por sócio Merv, também cético ao que Hilly Kristal faz.

Apesar do filme focar em Hilly, tentam puxar a sardinha para sua filha, Lisa, sempre preparada, a âncora naquele barco prestes a virar, historicamente longe de ser verdade. Há também o personagem Idaho representando todos os desvalidos aceitos de boa vontade por Hilly para trabalhar em seu bar. Idaho é um violinista drogado, parece uma versão adulta do Chaves, extremamente atrapalhado e põe em risco a todo o momento o CBGB. Para aumentar a carga pastelona, Idaho nutre uma quedinha por Lisa.

Movie Interview: Alan Rickman On 'CBGB' : NPRO roteiro começa a dar uma guinada, quando os gestores do bar caem na real de que o melhor jeito para manter tudo funcionando é mudar a visão inicial – no caso aceitar qualquer banda amadora, contanto que usasse material autoral (eles não tinham grana para pagarem direitos autorais). Parte desses artistas constroem a popularidade da casa, inevitavelmente vira um dos principais points marginais de Nova Iorque.

A partir daqui é uma forçosa chuva de referências, você tenta identificar ao máximo os artistas entre outras figuras daquela cena musical. Chegam ao ponto de colocarem pessoas que nunca se apresentaram ou sequer foram frequentadoras dali. Uns soam próximos, outros extremamente caricatos.

LEIA MAIS  O que é vocal gutural? Mitos e verdades sobre essa técnica cada vez mais popular

CBGB': movie review - New York Daily NewsNesse turbilhão de músicos, começa a ocorrer uma subtrama de Kristal querer empresariar os Dead Boys, mas o grupo é um desastre ambulante. Sangram a todo o momento a carteira de seu benfeitor. Pouco a pouco fica o dilema de como o CBGB continuará de pé com as constantes crises financeiras sem que Kristal negue qualquer ato de complacência. O final é do mais otimista possível, e guarda o desejo nítido de homenagear o “padrinho” do punk rock.

Em questão de erros o filme possui inúmeros, dos sabidos ao involuntários: Como The Police ter surgido no estabelecimento, Iggy pop fazendo dueto com Debbie Harry; ausência de outras etnias que também marcaram presença no CBGB tanto audiência quanto bandas, preferência por não frequentadores em prol de pessoas relevantes para o nome da casa de show e etc..

CBGB Music Drama Trailer | TopstarmoviePor outro lado, é uma produção bem intencionada em lembrar de forma carinhosa a figura de Hilly Kristal e todos os que ajudaram a projetar na raça o CBGB mundo afora. Um exemplo disso são as próprias transições do filme remetendo as fanzines “PUNK” de John Holmstrom, um dos principais divulgadores do bar. A ambientação é outro ponto positivo, ela retrata a condição podre do lugar: fiações instáveis, ratos e baratas aos montes, o cachorro do proprietário cagando no chão (piada frequente), banheiros degradados para não dizer a atitude instável de seus frequentadores. Por incrível que pareça, o filme foi rodado no estado da Géorgia.

Essa comédia com tons de drama diverte pelas figuras famosas, faz o espectador prestar atenção nos detalhes, em busca de referência além de retratar satisfatoriamente seus ambientes. Não espere precisão histórica, essa comédia deixa claro seu jeito de querer reconstruir o passado.

guest
0 Comentários
Sugestões
Veja todos os comentários